Como aumentar preços num pequeno negócio, com números
Decidir um aumento de preços a partir dos seus próprios custos: quanto subir, em que linhas mexer, como comunicar e o que observar depois.
Trabalha mais horas do que há dois anos, tem tantos ou mais clientes, e ao fim do mês sobra o mesmo ou menos. Entretanto o fornecedor subiu duas vezes, a eletricidade subiu, o seguro subiu — e a sua tabela continua igual, porque mexer em preços dá medo e porque nunca há um bom momento. A pergunta já não é se deve aumentar. É quanto, em quê, e como o dizer aos clientes. E as três respostas estão nos seus próprios números, não na tabela do concorrente do outro lado da rua.
Antes de decidir seja o que for, precisa de saber quanto lhe custa aquilo que vende. Não a média do setor nem o que se diz na conversa entre colegas: o seu custo. Para um serviço — um corte de cabelo, uma revisão, um prato — precisa de duas coisas: o que gasta em produto e material de cada vez, e quanto lhe custa ter a porta aberta durante um mês. Se tem os registos de despesas dos últimos três meses, tem isto tudo. Se não tem, é aqui que começa o trabalho, e provavelmente é este o verdadeiro problema.
Os números que tem de ir buscar aos seus registos
- O total de despesas fixas de um mês normal: renda, ordenados, seguros, contabilista, licenças, comunicações, eletricidade.
- O custo direto de cada serviço ou artigo mais vendido: produto, material, embalagem, o que se consome de cada vez.
- Quantas vendas ou serviços fez num mês normal, contados e não estimados.
- O preço atual de cada linha e há quanto tempo não lhe toca.
- Quais são os cinco artigos ou serviços que fazem a maior parte da sua faturação.
- Quanto subiram os seus fornecedores desde a última alteração de preços, comparando faturas antigas com recentes.
O aumento começa no custo, não na coragem. Some quanto os seus custos subiram desde a última alteração de preços — em euros por mês, com faturas na mão — e divida por quantas vendas faz num mês. Isso dá-lhe o aumento mínimo por venda apenas para ficar onde já estava. Depois decida se quer ficar onde estava ou recuperar margem. São decisões diferentes, e convém saber qual delas está a tomar.
Com números inventados, para o raciocínio ficar claro: os custos fixos subiram 240 € por mês e faz 400 serviços por mês. 240 a dividir por 400 dá 0,60 € por serviço. Um aumento de 1 € por serviço repõe o que perdeu e ainda deixa alguma folga; um aumento de 3 € é outra conversa e tem de ser justificado por algo que não sejam os custos. Repare no que este cálculo faz: transforma «tenho de aumentar» numa quantia concreta e defensável. Muitas vezes mostra que o aumento necessário é bastante menor do que aquele que estava a temer.
Não é obrigado a mexer em tudo. Suba onde o custo subiu e onde a procura é maior; deixe quieto aquilo que traz gente à porta. Olhe também para os valores finais. Preços com cêntimos estranhos criam problemas de troco e tornam a tabela difícil de ler; arredondar para valores limpos costuma facilitar a vida ao balcão. E se tem um artigo de entrada — o café ao pequeno-almoço, o corte simples, a lavagem básica — pense duas vezes antes de lhe tocar, porque é ele que traz o resto.
Formas de recuperar margem sem mexer na tabela toda
- Rever o preço dos extras e complementos, que raramente são comparados pelos clientes.
- Cobrar aquilo que já faz de graça: uma entrega, uma pequena reparação, um atendimento fora de horas.
- Ajustar a porção ou o que está incluído, dizendo-o com clareza em vez de o fazer em silêncio.
- Rever as condições de quem paga a trinta ou sessenta dias, porque isso custa-lhe dinheiro em tesouraria.
- Atualizar preços de contas de empresa e de clientes antigos que ficaram com condições de outra época.
- Deixar de aceitar prejuízo em serviços muito demorados, passando a cobrar por tempo e não por serviço.
Comunicar não exige discurso. Exige uma data e uma tabela nova. Escolha um dia — o primeiro de um mês é o mais fácil de explicar — e atualize tudo nesse dia: a tabela na parede, o menu, o site, a lista de quem faz as marcações. Avise a equipa primeiro. Quem está ao balcão vai ouvir as reações antes de si e tem de saber os preços novos de cor e o que responder. Um funcionário apanhado desprevenido acaba a fazer descontos por embaraço, e aí o aumento evapora-se logo na primeira semana.
O que dizer quando o cliente perguntar
- Uma frase curta e verdadeira chega: os custos subiram e os preços foram atualizados este mês.
- Não peça desculpa nem invente causas, porque explicações longas soam a insegurança e convidam à negociação.
- Diga o preço novo com naturalidade, sem antecipar a reação do cliente.
- Se quiser manter uma condição especial para alguém, decida isso antes e por escrito, nunca no momento.
- Se um cliente antigo reagir mal, oiça e não recue nesse dia; reveja daqui a um mês, com números à frente.
Um livro de caixa mostra-lhe o que aconteceu; não decide o preço por si nem sabe o que o cliente está disposto a pagar. E qualquer alteração de preços tem reflexo na faturação e no IVA — se tem dúvidas sobre taxas, arredondamentos ou o que deve constar dos documentos, essa pergunta é para o seu contabilista.
Depois do aumento, dê-lhe quatro semanas antes de tirar conclusões. E conte clientes, não apenas euros: se a faturação subiu e o número de atendimentos se manteve, correu bem. Se a faturação subiu e o número de atendimentos caiu muito, olhe para as linhas específicas que perderam procura, porque normalmente são uma ou duas e não a tabela inteira. Sem registo diário do número de vendas, esta avaliação é impossível e fica-se pelo «pareceu-me que veio menos gente», que é onde as boas decisões costumam morrer.
Experimentar
Para acompanhar isto precisa das vendas contadas por dia, em papel, em folha de cálculo ou onde quiser, desde que seja todos os dias. O ZapLedger faz isso a partir do WhatsApp, com uma mensagem curta por venda, mas o método acima funciona igualmente bem com um caderno preenchido a sério.
Experimenta grátisUm aumento adiado não desaparece: acumula. Quanto mais tempo passa, maior é o salto que vai ter de dar de uma vez, e é o salto grande que assusta os clientes, não a subida pequena e regular. Marque uma data para rever preços uma vez por ano e trate disso como trata do seguro: sem drama, com faturas em cima da mesa.